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Histórico do prédio

O objetivo deste texto é resgatar parte da história do edifício localizado na Rua da Bahia, 1201, região central de Belo Horizonte-MG.


O imóvel em questão, em estilo Art Decó - predominante na capital mineira no final da década de 30, foi sede de importantes instituições, como: o centenário Clube Belo Horizonte, a Rádio e o Cinema Guarani e a Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais (MINASCAIXA). Atualmente, abriga a 4ª Companhia do 1º Batalhão de Polícia Militar de Minas Gerais.
O Clube Belo Horizonte foi fundado em 1904 e teve como seu primeiro presidente um importante político mineiro, Dr. Davi Moretzohn Campista. Entre os sócios-fundadores, estão importantes personalidades da sociedade mineira, como Afonso Pena Júnior e Benjamim e Francisco Lafayette Brandão.
A história dessa agremiação e, obviamente, do edifício remonta aos últimos anos do século XIX, momento em que Belo Horizonte, a nova capital do estado de Minas Gerais, já havia sido fundada e recebia seus ajustes finais.
Nesse período, haviam sido concluídos alguns prédios públicos e residências de funcionários do estado. A cidade começava a adquirir vida própria com a instalação de casas de comércio e serviços de utilidade pública, como saneamento e abastecimento de água e luz elétrica. Entretanto, segundo o historiador Abílio Barreto, já atravessava sua primeira grave crise financeira, conhecida por “mal dos sete dias” .
A crise decorreu da realização das obras para construção da nova capital, quando se consumiu vultuosa quantia na construção de ruas, avenidas, edifícios públicos, residências e outros serviços. O estado encontrava-se sem recursos financeiros, assim como a administração municipal, acarretando atrasos de pagamentos de construtores e funcionários e gerando, já nesses primeiros tempos belorizontinos, desemprego, preocupação e apatia por parte da população e dos governantes .
Na palestra intitulada “O Alvorecer da Literatura em Belo Horizonte”, publicada no Boletim de outro glamoroso clube da capital, o Rotary Club de Belo Horizonte, Abílio Barreto atribui a Bernardo Pinto Monteiro, então prefeito da nova capital, a responsabilidade e astúcia em conduzir esse delicado momento financeiro no qual a mesma se encontrava e sanear suas dívidas .
Uma das saídas encontradas foi a emissão de vales ou títulos às firmas credoras do estado e aos trabalhadores. Os vales tinham valor comercial de troca, já que o prefeito e sua equipe os haviam negociado com comerciantes da capital, possibilitando sua utilização na cidade. A medida não só visava ao pagamento dos atrasados aos credores, mas, sobretudo, o reaquecimento da economia e o início de sua recuperação na capital mineira.
Ao mesmo tempo em que a administração pública trabalhava para estabilizar a vida financeira da capital, no cerne das classes mais elevadas da cidade eram fundadas sociedades recreativas e literárias e clubes carnavalescos. Os principais clubes fundados em Belo Horizonte no início do século XX foram: o Clube das Violetas, o Club Rose e o Clube das Rosas.
Associados a eles, surgiram grupos como os Jardineiros do Ideal e os Diabos da Casaca. Este, voltado para as artes em geral; e aquele para a literatura.
Os Jardineiros do Ideal tinham 12 integrantes e era ligado ao Clube das Violetas. Queriam desenvolver a literatura na capital, escrevendo artigos sobre poesia, música, história, comédia e romance. Os artigos eram publicados no Jornal Literário “A Violeta” .
De fato, esses clubes e agremiações tiveram importante papel na já agitada vida política e social da tenra Belo Horizonte. Além de servirem como ponto de encontro e distração à incipiente sociedade da época, através de magníficos saraus regados a boa música e banquetes exuberantes, eram locais propícios para que intelectuais e governantes, tanto na esfera municipal quanto na estadual, debatessem sobre política, chegando até a decisões sobre certos assuntos.
A elite mineira encontrava-se com freqüência nesses locais. Muito politizados e ligados ao Partido Republicano Mineiro que, juntamente com o Partido Republicano Paulista, controlava a política nacional baseados nas alianças da “política do café com leite” , era freqüentemente nesses clubes que se reuniam para escolher os futuros presidentes da República. Num mandato era escolhido um governante paulista e no seguinte um mineiro.
O clube de maior importância social à época foi o Clube das Violetas. Localizava-se no Palacete Steckel, Rua Guajajaras, 176 - posteriormente sede da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Nesse local, também residência e ateliê do pintor e escultor alemão Frederico Antônio Steckel , foram realizados inúmeros saraus literários com a presença de personalidades ilustres, como: Afonso Pena Júnior, Edgar da Mata Machado, Dr. Josafá Belo, Lindolfo Azevedo, entre outros. Também eram realizados bailes musicais e carnavalescos, que entretinham os associados da agremiação geralmente às quartas-feiras. O primeiro presidente do Clube das Violetas foi Frederico Steckel, um de seus fundadores e principais organizadores dos eventos.
Devido à falta de verbas para a manutenção da agremiação, o Clube das Violetas deixou de existir por volta de 1901. Outro fato que possivelmente colaborou para seu fechamento foi a transferência de Steckel – seu então presidente – para o Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 1921.
Outros clubes que também haviam se destacado até então perderam importância naquele momento. O Club Rose, talvez o mais sofisticado de sua época, compunha-se basicamente de senhoras e senhoritas da mais alta classe da sociedade mineira. Liderado pela Sra. Rosinha Sigaud, sua festa inaugural foi realizada nos salões do Palácio da Liberdade, sede administrativa e residência oficial do presidente do estado de Minas Gerais e sua família.
A elite belorizontina abateu-se com a extinção do Clube das Violetas. Entretanto, a perda desse espaço cedeu lugar a outro e, em 1904, mais precisamente em 11 de junho, foi fundado o Clube Belo Horizonte.
Pedro Nava, em seu “Beira-Mar”, tece o seguinte comentário sobre a nova agremiação:
Parece que o Clube Belo Horizonte saíra de um primitivo Clube das Violetas - grupo mundano da nova capital [...] Era a casa onde se reunia a elite da cidade e funcionava, quando o conheci, como já ficou dito, nos altos do Cinema Odeon .
No mesmo texto, o autor descreve o espaço do Clube Belo Horizonte, afirmando que ele seria a continuação do Clube das Violetas:
Logo no corredorzinho de entrada o Paulo mostrou a porta à esquerda. Essa é a sala de leitura. Era alegre, empapelada de cinzento-claro com frisos brancos, larga mesa central redonda, com todas as revistas e jornais fornecidos à leitura dos sócios. [...] Sofás, poltronas, cadeiras de palhinha. Nas paredes, retratos dos presidentes e beneméritos do fino grêmio. Numa bela moldura e confirmando a filiação ao Clube das Violetas, fotografia de uma diretoria do mesmo entre cujos membros se destacava a figura, ainda muito moça, mas de maiores bigodes, do meu amigo Dr. Afonso Pena Jr .
A maior parte dos sócios do extinto Clube das Violetas tornar-se-ia sócio-fundador do Clube Belo Horizonte. A exemplo disso, tem-se uma fotografia de Afonso Pena Júnior, diretor do Clube das Violetas e um dos 12 integrantes do Grupo Jardineiros do Ideal. Nota-se, ainda, outras similitudes em relação às agremiações. Ambos os clubes eram compostos e freqüentados pela elite da sociedade mineira e tiveram, inicialmente, a mesma finalidade e semelhanças em seus estatutos.
A primeira sede do Clube Belo Horizonte foi um prédio na Rua Guajajaras, 176, mesmo local do Clube das Violetas. Em 1911, a agremiação, tendo como presidente o Sr. Francisco Lafayette Silviano Brandão, transferiu-se para a Rua da Bahia, esquina com Avenida Afonso Pena, num sobrado que pertencia ao Sr. Francisco Mendes.
No andar térreo funcionava um dos principais cinemas da cidade na época, o tradicional Cine Odeon. Responsável por imensas filas para suas sessões, era freqüentado, sobretudo, pela elite, encontrando-se, contudo, populares entre eles. Todos se espremiam para ver a novidade do momento: o cinema mudo! Tudo em preto e branco e causando fascinação aos espectadores da época.
No andar de cima, a sede do Clube Belo Horizonte, aconteciam reuniões, jogos de xadrez e cartas, bailes, saraus e leituras.
Vários escritores mineiros, como o já citado Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Ciro dos Anjos, entre outros, relatam, em suas crônicas, passagens sobre o edifício da Rua da Bahia, enaltecendo ali o Cinema Odeon e o Clube Belo Horizonte.
Nava, no poema “O Não-Dançarino” relata: “Não alcancei o Clube das Violetas/, delicado demais para durar/ À minha frente só o Clube Belo Horizonte”. Já Drummond, no poema “O Fim das Coisas”, lamenta o fechamento do Cinema Odeon em janeiro de 1928, localizado no mesmo edifício do Clube Belo Horizonte .
A Rua da Bahia era, àquela época, a verdadeira zona boêmia da capital mineira. Com seus bares – entre eles, o famoso Bar do Ponto – e outros atrativos – como o Teatro Municipal – formava um corredor cultural ligando a Avenida Central – hoje Afonso Pena – à Praça da Liberdade, sede administrativa do estado de Minas Gerais.
Sobretudo no trecho entre a atual Avenida Afonso Pena e a Avenida Álvares Cabral, residiam a boemia e a cultura belorizontinas, onde ícones da literatura e política mineira se encontravam. Nesse contexto estava o Clube Belo Horizonte, sobre o Cinema Odeon, até a década de 30 do século XX.
Em 1922, um novo estatuto foi redigido e aprovado pelos membros do Conselho e da Diretoria do Clube Belo Horizonte. Esse, no entanto, só fazia reafirmar o caráter elitista da agremiação onde, para tornar-se sócio efetivo, o pretendente deveria atender aos seguintes requisitos (sic):
Capítulo II
Art 5 - A associação será constituida por associados classificados nas quatro seguintes cathegorias:
a) Effetivo; b) Temprorarios c) Honorarios d) Beneméritos
Paragrapho 1- Serão socios effetivos
a-) Os actuaes socios fundadores do Club e aqueles que na data deste estatuto já tenham pago a joia de entrada e vinte e quatro mensalidades consecutivas.
b-) Os demais associados admitidos antes da data destes estatutos, quando completaram o pagamento das vinte e quatro mensalidades e da joia de entrada.
c-)Os que adquirirem uma ou mais acções da sociedade na forma destes estatutos.
Paragrapho 2- Temporarios os que contribuirem com a quota que for fixada annualmente pela assembléa Geral Ordinária.
Paragrapho 3- Honorarios, as pessoas de distinção e em transito nesta cidade, não excedendo sua permancencia prazo superior a tres (3) mezes, a juizo da directoria
Paragrapho 4- os benemeritos socios effetivos que se tornarem merecedores dessa distincção por serviços relevantes prestados á Associação. .
O mesmo estatuto, Capítulo VI, Artigo 32, versando sobre as Disposições Especiais, autoriza a emissão de ações (atual cota de clubes) no valor de 200 mil réis, com o objetivo de agregar receitas para a construção da nova sede do Clube Belo Horizonte, em terreno a ser obtido da prefeitura, evidenciando-se, assim, a intenção dos associados de transferir a sede localizada na Rua da Bahia, sobre o Cinema Odeon, e edificar outra em local maior e capaz de corresponder à importância do Clube.
Em 27 de novembro de 1926, foi lançada a pedra fundamental do Clube Belo Horizonte. O terreno escolhido para a nova edificação foi a mesma Rua da Bahia, agora, porém, esquina com Avenida Álvares Cabral.
O projeto do edifício é de autoria do arquiteto Luiz Signorelli, fundador da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor de vários projetos na capital mineira, como o Edifício da Secretaria de Justiça de Minas Gerais, na Praça da Liberdade; a Residência da Família Falci, na Avenida Bias Fortes; além de outras importantes edificações realizadas em parceria com seu amigo e também arquiteto, o italiano Rafaello Berti.
Vários jornais da época noticiaram o lançamento da pedra fundamental da futura sede do Clube Belo Horizonte. O jornal oficial do estado, o MINAS GERAES, trouxe a seguinte reportagem (sic):
[...] será hoje, ás 16 horas e meia, o lançamento da pedra fundamental do mangnifico edifício que vae construir o Club Bello Horizonte, no terreno sito à rua da Bahia, cruzamento da avenida Álvares Cabral.
Paranymphará o acto o sócio sr. Dr. Gudesteu Pires, Secretário de Finanças, especialmente convidado para esse fim.
Dado o interesse que se verifica pela construcçao da nova séde do Club, é de esperar grande concorrencia ao acto.
Ás 22 horas, realizar-se-á o grande baile que o Club offerece ao Sr. presidente Antonio Carlos e aos seus auxiliares de Governo, os quaes comparecerao à festa, em companhia de suas exm.sr. famílias [...]
Outro importante jornal mineiro, o DIÁRIO DE MINAS, traz reportagem de mesmo teor, acrescentando a presença do representante da prefeitura municipal, Dr. Odilon Andrade, e do Pe. Adriano Wiegant, que deu a bênção ao Clube Belo Horizonte .
Em outra matéria sobre o evento, o MINAS GERAES, na cobertura do baile oferecido ao presidente Antônio Carlos, traz na íntegra o discurso do presidente do Clube Belo Horizonte, Sr. Plínio Mendonça. A seguir, parte do texto no qual o presidente da agremiação agradece a todos, sobretudo à Prefeitura, pela doação do terreno (sic):
[...] mas graças aos esforços de todos os srs. Sócios, à sua vontade e generosidade do governo municipal passado, à boa-vontade com que esperamos contar, o de facto já contamos, dos governos estadual e municipal de agora e, principalmente, ao zelo e interesse desenvolvidos pelo Coronel Virgilio Christiano Machado, presidente da directoria passada, a cuja a dedicaçao deve o Club a obtenção gratuita deste magnífico terreno, esperamos com a ajuda de Deus, levá á conclusao e bom termo as obras cujo inicio ora é dado com o lançamento da pedra fundamental [...]
Ressalta-se a importância que o MINAS GERAES e o DIÁRIO DE MINAS deram ao evento, sobretudo pelo homenageado, o presidente do estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que compareceu acompanhado de sua família e comitiva. Os jornais atentaram, ainda, para o momento da chegada do governante às 22:30 horas e sua retirada às 2:00 horas da manhã.
De acordo com as alianças afiançadas pela “política do café-com-leite” entre Minas e São Paulo, o governante filiado ao Partido Republicano Mineiro seria o próximo presidente da República, em substituição ao paulista Júlio Prestes. Entretanto, como se sabe, Antônio Carlos de Andrada não chegou a assumir o Palácio do Catete - antiga sede do governo brasileiro localizada no Rio de Janeiro. A aliança entre mineiros e paulistas foi desfeita e os eventos políticos de 1929 culminaram na Revolução de 1930 .
Nos arquivos do Clube Belo Horizonte, localizado na Avenida Otacílio Negrão de Lima, não foram encontrados registros sobre o custo da obra da nova sede, sobre os responsáveis pela construção do edifício ou sobre a data de inauguração. Não obstante, jornais e fotos da época noticiam a finalização das obras em 1928 .
O MINAS GERAIS fornece indícios, na coluna de Editais e Avisos, sobre uma concorrência na agremiação (sic):
Club Bello Horizonte.
Edital de Concorrencia.
A directoria do Club Bello Horizonte previne aos interessados que se acha aberta, desde hoje, a concorrencia para a segunda parte da construçao de sua nova sede (Alvenaria, Esquadria, Soalho, Pintura, etc.), devendo os mesmos procurar nesta Secretaria as especificações necessárias. As propostas devem ser apresentadas dia oito (8) de maio, ás 15 horas .
Observando-se essa nota, presume-se que as obras da nova sede encontravam-se em ritmo avançado e em fase de finalização.
A coluna Sociaes do MINAS GERAES dá evidências de que o prédio andava às voltas com os acabamentos finais (sic):
Realizou-se hontem, às 15 horas, na nova séde do Club Bello Horizonte, em construncçao, a cerimonia de posse dos novos membros da directoria, Sr. Dr. Marques Lisboa, Dr. Carvalhaes de Paiva e J. Avilla, respectivamente, nos cargos de presidente, vice-presidente e tehesoureiro .
Em nove de novembro de 1928, na coluna Secção Alheia, o mesmo impresso oficial do estado convoca os associados para assembléia geral, dia 14 de novembro às 19:30 horas, na atual sede do Clube, para deliberar sobre a modificação do estatuto e como obter recursos para a conclusão e mobiliamento da nova sede, fazendo supor que, a essa altura, já haviam sido finalizadas as obras estruturais, restando apenas pendências de caráter decorativo.
Em 1941, a Rádio Cinema Guarani, um dos veículos de comunicação do grupo Diários Associados, pertencente ao Sr. Assis Chateaubriand, instalou-se no andar térreo do edifício-sede do Clube Belo Horizonte.
A partir daí, o Cinema Guarani despontava entre os principais da cidade, seguindo a época de crescimento dessa arte em todo o Brasil. Mais uma vez, desde a sua fundação, o Clube Belo Horizonte dividia seu espaço com um cinema. Primeiro fora o Odeon, ainda no início do século XX e, posteriormente, o Guarani, na década de 40.
O Cine Guarani permaneceu na edificação até 1981, quando foi fechado. Nesse período, os pequenos, mas aconchegantes, cinemas da capital mineira foram aos poucos cedendo espaço, por força de mercado, às grandes e modernas salas dos Shoppings Centers, como as do BH Shopping, na década de 80, Central Shopping, Del Rey, Minas, Cidade e Diamond Mall, nos anos 90.
Em 1975, numa decisão que envolveu a diretoria, o Conselho e, posteriormente, a convocação de uma Assembléia Geral, o Clube Belo Horizonte deliberou colocar seu histórico e imponente edifício da Rua da Bahia em leilão. Foi uma decisão muito difícil e polêmica, tanto para os antigos sócios - saudosos dos grandes bailes e eventos do Clube - quanto para a imprensa - que tratou de alardear o fato fazendo com que a população temesse a perda do cinema instalado no prédio desde 1941.
Ademais, havia o risco da perda de mais um edifício histórico na Rua da Bahia, pois, naturalmente, o arrematador do leilão poderia se desfazer do imóvel e aproveitar suas condições de localização para construir algo mais moderno e rentável.
Numa das várias entrevistas que o presidente do Clube, à época o Sr. José Jacinto Silveira, concedeu ao ESTADO DE MINAS, tentou explicar a decisão de vender a sede social do Clube na Rua Bahia:
Nossa entidade passou por uma série de dificuldades (esteve 10 anos praticamente sem funcionar) e somente após 1961, sob a presidência de Prudente Versianni Caldeira, começou a se recuperar lentamente. Compramos uma área de 20 mil metros quadrados na Pampulha, à margem da lagoa para a construção da nossa sede campestre. Nesta época já não se admite a hipótese de um clube apenas com sede social. Os novos querem praticar esportes, nadar e descansar sem a poluição da cidade .
Tomada a decisão, a diretoria teve ainda de resolver outro impasse. A cessão para a construção da nova sede no terreno da Rua da Bahia com Álvares Cabral, em 1926, pela Prefeitura Municipal, implicava juridicamente a inalienabilidade do imóvel que, portanto, não poderia ser vendido.
Diante desse fato, o presidente do Clube, Sr. José Jacinto Silveira, conseguiu com a antiga administração, do prefeito Osvaldo Pierucetti, anular a cessão e comutação do prédio, que passou a vigorar com status de doação, podendo, assim, ser comercializado legalmente.
Findados os empecilhos, anunciou-se o leilão para tão logo obterem-se os recursos para a construção da nova sede campestre no terreno adquirido no corrente ano, à Avenida Otacílio Negrão de Lima, Pampulha.
O leilão realizou-se numa sexta-feira, às 14:00 horas do dia 19 de dezembro de 1975 pelo leiloeiro, o Sr. Antônio Ferreira. Antes de se iniciarem os trabalhos, a diretoria do Clube decidiu reduzir o valor pedido pelo imóvel de 620 metros quadrados na zona central da capital, de 10 para oito milhões de cruzeiros. A imprensa acompanhou o leilão, depositando as atenções ao Sr. Antônio Luciano Paiva, proprietário do Cine Guarani e um dos principais interessados na aquisição do edifício.
Com meia hora de atraso e após cinco minutos, parte da história do Clube Belo Horizonte e da capital mineira havia sido vendida. O valor arrematado no leilão foi de Cr$8.010.000 e o comprador, a Caixa Econômica de Minas Gerais (MINASCAIXA), representou-se por seu advogado, Felipe Nery de Almeida.
A diretoria financeira da instituição justificou sua ausência ao leilão, atribuindo-a à inauguração de uma agência do Banco no interior do estado. Seu presidente, o Sr. Hélio Garcia, que, posteriormente seria governador do estado, encontrava-se no Rio de Janeiro.
A Caixa Econômica Estadual quitou a comissão do leiloeiro, cerca de Cr$400.000, e entregou ao Clube Belo Horizonte um cheque no valor de Cr$2.040.000 e outro de Cr$1.640.000, referentes aos 20% do sinal. O restante foi pago em 18 parcelas.
Vendida a sede da Rua da Bahia, restava ao Clube Belo Horizonte transferir-se para a Pampulha, onde seriam finalizadas as obras das áreas de lazer e inicializadas as da construção da sede social. Antes disso, contudo, a diretoria do Clube realizou o baile de despedida de sua antiga sede social à Rua da Bahia. O evento foi assim noticiado no Diário de Minas:
Última promoção: Seresta de despedida
A última promoção do Clube Belo Horizonte será realizada no dia 24. Trata-se de uma seresta às 22 horas, traje esporte fino. O fato interessante é que naquele mesmo dia a direção do Clube entregará as chaves do prédio à Caixa Econômica Estadual. Enquanto isso, a secretaria será transferida para a rua Sapucaí, 272, loja .
Com a mudança do Clube Belo Horizonte da Rua da Bahia, em 1981, foi fechado o Cine Guarani, fato lamentável para os mineiros admiradores da sétima arte.
Após a compra do prédio, a Caixa Econômica Estadual cogitou em restaurar o edifício e transformá-lo em teatro, numa parceria com a Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Contudo, o projeto não se concretizou e a edificação passou a servir às atividades da Caixa Econômica Estadual, mais tarde MINASCAIXA.
Desde 1994, quando o prédio teve sua fachada tombada pelo Poder Público Municipal, abriga a 4ª Companhia do 1º Batalhão de Polícia Militar de Minas Gerais. Foi, ainda, sede da associação dos ex-funcionários do referido Banco.
A autarquia Caixa Econômica Estadual (MINASCAIXA) foi extinta em 24 de agosto de 1998, por meio do Decreto n.º 39.835, expedido pelo então governador do estado de Minas, Eduardo Azeredo. Com a extinção, que ocorreu após processo de liquidação extrajudicial, a Secretaria de Estado da Fazenda assumiu, como consta no Art. 1º do Decreto supracitado, os direitos e obrigações da antiga autarquia.
O estado de Minas Gerais permanece como atual proprietário do antigo imóvel na Rua da Bahia, tendo, em 20 de setembro de 2006, assinado contrato de cessão para uso da Fundação Inimá de Paula e instalação, no local, do Museu Inimá de Paula, que fará parte do Corredor Cultural da Praça da Liberdade.